Engenheiro alagoano defende que é preciso mudar urgentemente a concepção dos projetos de engenharia para proteção costeira

 Por Claudio Bulgarelli - Sucursal Região Norte / Tribuna Hoje


Praia agora recuperada ganhou mais de 100 metros de areia - Foto: Ascom Ocean Protections

O ano de 2024 mal começou e já existe uma corrida contra o tempo em que muitas cidades correm para proteger suas praias, cada vez mais vulneráveis diante do aumento do nível do mar. Depois do quase fracasso da reunião do clima da ONU, a COP 23, que pecou pela falta de ambição num momento em que a janela de oportunidade para mudar a trajetória do planeta está se estreitando, centenas de cidades em todo o Brasil fazem corrida para alargar praias. A estratégia, que é defendida atualmente por parte dos oceanógrafos para mitigar a erosão costeira, encontra ainda resistência por parte de especialistas, que criticam seu alto custo de realização e manutenção, bem como apontam a existência de projetos limitados que podem gerar problemas ao longo do litoral no futuro.

Um desses é o geógrafo baiano Dieter Muehe, que afirmou, em recente entrevista, que é fundamental monitorar o litoral e o oceano para saber o que realmente vai mudar no clima. Ganhador do Prêmio Conrado Wessel 2003 na categoria Ciência Aplicada ao Mar, e que participou de dois importantes livros sobre o tema, "Erosão e progradação no litoral brasileiro" e "Rio, próximos 100 anos – O aquecimento global e a cidade", ele afirmou, que "a longo prazo tudo vai por água abaixo. Não tem muito como segurar. Mas enquanto isso as pessoas vão segurando. Uma proteção talvez dê uma garantia de 30, 40 anos. Depois, vamos ver como fica".

Por isso o engenheiro Marco Lyra, maior especialista alagoano em proteção costeira, com dezenas de projetos realizados com sucesso ao longo do litoral, concorda com o professor Dieter, uma das maiores autoridades em dinâmica costeira do Brasil. "As experiências com obras tradicionais não estão aumentando a capacidade de resiliência da praia. É preciso mudar a concepção dos projetos de engenharia para proteção costeira".

Foto: Edilson Omena

Segundo o engenheiro, um levantamento recente identificou 24 intervenções de grande porte realizadas entre 2018 e 2023 ou projetadas para ocorrer nos próximos anos. Além das engorda de praia, que ganhou projeção nacional após as obras em Balneário Camboriú (SC) em 2021, há também a construção de espigões, estrutura rígida, geralmente de pedra, perpendicular à praia para reter areia.

"Os efeitos das mudanças climáticas sobre as regiões costeiras promovem processos erosivos nas áreas urbanizadas. O litoral alagoano e do Nordeste tem sofrido com ressacas cada vez mais fortes, onde ondas avançam sobre ruas, casas e comércios. As ressacas das marés e a elevação no nível dos oceanos contribuem decisivamente para o aumento da erosão marinha no litoral. Assim é preciso buscar maior eficácia nas obras de contenção costeira, procurando encontrar nas soluções de engenharia a recuperação da praia natural recreativa. É preciso ação para conter a erosão costeira. As cidades litorâneas precisam de adaptação para enfrentar as marés atuais e futuras, frente às mudanças climáticas", afirma o engenheiro.

Nesse contexto, segundo Marco Lyra, surgem duas situações. A engorda artificial, que é o alargamento da faixa de praia, tecnicamente conhecido como aterro artificial, consiste na colocação artificial de areia preferencialmente de mesmo tamanho e densidade do material original da praia. O principal objetivo da obra é preservar, alargar ou formar praias e dunas compensando a erosão verificada, aumentando a largura da praia. Geralmente a alimentação artificial é utilizada associada a outras obras de proteção costeira de forma complementar tais como: espigões, quebra-mares e molhes.

Já a engorda natural, é uma nova abordagem exigindo novos conceitos na definição de obras de defesa costeira com o objetivo de promover a recuperação de praias. Para o engenheiro, no ambiente costeiro, os ventos são os grandes responsáveis pela dinâmica costeira, e seu papel não se restringe a originar ondas, e por consequência, as correntes litorâneas.

Em Alagoas, foram construídos dissipadores de energia de ondas com uso de geossintéticos desde 2003 para proteção costeira. O uso de dissipadores de energia em oito praias do litoral alagoano, sendo todas elas em condições completamente distintas do ponto de vista geográfico e geológico, teve como resultado final a contenção do avanço do mar sem transferir o processo erosivo para áreas adjacentes, além da recuperação da praia com a recomposição do perfil devido à engorda natural e a facilitação do acesso da população à praia natural recreativa, o que indica a necessidade de expandir a experiência para outras praias.

FONTRE: TRIBUNA HOJE





Comentários

Mais visitados