Investigadores testam sistema de alerta para avanços do mar na Caparica (Portugal)

16:47 Marco Lyra | Engenheiro Civil | Especialista em Obras de Defesa Costeira. 0 Comentarios



Quando as previsões apontam para condições de mar semelhantes às que causaram estragos no passado, o sistema avisa a Protecção Civil com pelo menos seis horas de antecedência.

Sistema desenvolvido no âmbito do projecto Hidralerta visa evitar o impacto da forte agitação marítima em pessoas e bens
Ondas que galgam paredões e arrasam apoios de praia, carros estacionados junto à costa atingidos pela força da água, garagens e casas inundadas. As imagens repetem-se quando há tempestades com forte agitação marítima. Para evitar os estragos, um grupo de investigadores está a testar na Costa da Caparica um sistema que calcula os riscos para as zonas costeiras em caso de tempestade no mar e emite alertas com pelo menos seis horas de antecedência.

Os investigadores estudaram as diversas tempestades registadas nos últimos 30 anos – o episódio mais recente foi no início de 2014, com a tempestade Hércules – e o seu impacto no litoral do concelho de Almada, nomeadamente em termos de erosão e galgamento. Desta análise resultou a criação de um sistema que emite um alerta de cada vez que as previsões apontem para condições de mar semelhantes às que causaram estragos (afectando pessoas, bens ou actividades) no passado.

“Sempre que ao largo se verifiquem determinadas condições de agitação marítima é possível calcular a altura das ondas junto à costa e traçar o risco de galgamento, prever as zonas e o número de pessoas que podem ser mais afectadas”, explica João Carlos Ferreira, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, um dos coordenadores do projecto Hidralerta. Automaticamente, e com uma antecedência mínima de seis horas, o sistema avisa as autoridades, como a Protecção Civil, que podem assim tomar medidas de prevenção.

Segundo o especialista em erosão costeira, a inovação está na rapidez e na precisão dos mapas de risco. O sistema está a ser aplicado em praias arenosas com e sem protecção costeira, na Caparica, e também em portos na Praia da Vitória, em São Miguel, Açores. “É aplicável em toda a costa”, afirma, sublinhando que “a ideia é que seja acessível em qualquer computador onde seja instalado o software”.

O projecto, que está a ser coordenado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil e no qual participam investigadores da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade dos Açores, é financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. “A próxima fase, a partir de Setembro, é trabalhar com a Protecção Civil e com outras entidades para delinear uma estratégia de implementação”, diz José Carlos Ferreira.

A Caparica está numa zona de risco, como comprovam vários estudos que têm sido feitos nos últimos anos. Ferreira sublinha que “sempre houve galgamentos” naquela zona mas a erosão e o avanço da ocupação humana junto à praia fez acentuar os estragos. Na cartografia disponível é visível um recuo da linha de costa, na praia de S. João da Caparica, de 410 metros desde 1940. “Falámos com pessoas que ainda se lembram de ir ao Bugio a pé durante a maré vazia.”

Para o especialista, a zona poderá beneficiar de uma “mudança de paradigma”, com uma maior aposta na “engenharia natural”, como os enchimentos de praia e o restauro do cordão dunar, e menos nas obras pesadas como esporões. Esta é, de resto, uma das principais recomendações do Relatório do Grupo de Trabalho do Litoral, elaborado por uma comissão nomeada pelo Governo e coordenada pelo professor Filipe Duarte Santos, da Universidade de Lisboa, autor de diversos trabalhos sobre os impactos das alterações climáticas em Portugal.

O relatório, cuja versão final foi debatida nesta sexta-feira à tarde, em Almada, numa conferência intitulada “Vulnerabilidade e Gestão do Risco Costeiro – que soluções para a Costa da Caparica?”, faz uma análise dos pontos críticos do litoral e diz que só para repor em circulação a areia que faz falta à costa serão necessários 221 milhões de euros nos próximos seis anos e 734 milhões até 2050.

A alimentação artificial das praias “é melhor e mais eficaz, embora não necessariamente mais barata, mas tem menos manutenção e é mais amiga do ambiente”, sublinha José Carlos Ferreira, que também participou na elaboração do relatório. O especialista critica porém a “falta de comunicação” entre as autoridades responsáveis por estas operações e a população, a quem é preciso explicar que “a areia que o mar arrasta consigo durante o Inverno não desaparece”.

O recuo e relocalização das construções existentes na linha de costa é outra recomendação da comissão para as zonas onde existe elevado risco de galgamento, inundação ou erosão.

Fonte: www.publico.pt

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