Ressaca do mar causa danos na orla da Capital (CE)

Ponte Metálica foi interditada, após tábuas do piso se soltarem; calçadão cedeu e bancos e coqueiros caíram
Com o calçadão da Praia de Iracema repleto de pedras e areia devido à ressaca do mar dessa terça-feira (13), dezenas de garis trabalham pesado para recuperar, em parte, o cenário de antes. Isso porque as ondas de 4,6 metros de altura, além de fazer o calçadão "virar praia", causaram danos materiais que requerem dinheiro dos cofres públicos.

O calçadão da Praia de Iracema ficou coberto de areia, e uma retroescavadeira trabalhava na limpeza. Ontem, as grandes ondas não tinham a mesma força das de terça-feira, mas ainda assustavam Foto: Kléber A. Gonçalves

Parte do calçadão cedeu, coqueiros caíram e bancos e equipamentos de lazer foram destruídos. Até a Ponte dos Ingleses (Metálica) foi interditada. As fortes ondas banharam a estrutura completamente. A força da água soltou várias tábuas do piso. O fenômeno deixou um dos quiosques da ponte com o assoalho comprometido e problemas na instalação elétrica.

A assessoria de imprensa da Secretaria do Turismo do Ceará (Setur), órgão responsável pela Ponte dos Ingleses, informou que o ponto turístico foi fechado porque, na situação em que está, oferece riscos aos visitantes. Uma equipe da Setur deve vistoriar a ponte, nesta manhã, para calcular os danos e o prazo máximo para a reforma.

Vinte garis da Prefeitura de Fortaleza chegaram à Praia de Iracema por volta das 7h para realizar a limpeza. Mas, como percebeu que o trabalho era muito para pouca gente, a Secretaria Executiva Regional (SER) II enviou mais homens ao local, em torno de 30. Também providenciou uma retroescavadeira para retirar a areia e, assim, agilizar aos serviços.

No espaço destinado às bicicletas, patins e skate, por exemplo, era impossível ver o chão. A ressaca jogou tanta areia no calçadão que os bancos ficaram praticamente invisíveis.

De acordo com o titular da SER II, Cláudio Nelson, a ação vai se estender até que toda a área atingida esteja livre para a circulação. Ele informa que a equipe de limpeza ficará de plantão nos próximos dias, pois o fenômeno pode acontecer novamente. Após os trabalhos, a Prefeitura fará um levantamento sobre os danos materiais.

Atração
Na Avenida Beira-Mar, a ressaca se tornou a grande atração de ontem. Ao lado do espigão da Avenida Rui Barbosa, uma pequena multidão se aglomerou para observar as ondas grandes baterem na orla.

A dona de casa Eloise Facó, 46 anos, viu no jornal a informação sobre a ressaca e resolveu conferir. Acompanhada do marido, do filho e da mãe de criação, ela saiu de seu bairro, no Dionísio Torres, para acompanhar de perto o fenômeno. A professora Vanda Façanha, 51 anos, moradora do bairro Varjota também foi conferir o fenômeno. "É interessante e, ao mesmo, tempo assustador", comentou.

Os comerciantes comemoraram o grande movimento. "As vendas melhoraram 80%", comemorou Luciano Sobreiro, 46 anos, vendedor de tapiocas. Quem também se beneficiou foram os surfistas. Na altura da Avenida Barão de Studart, muitos pegaram onda.

O trânsito ficou lento. Motoristas passavam devagar para observar a fúria das ondas, que não estavam com a mesma força de terça, mas ainda assustavam.

A ressaca do mar ocorre devido à presença das ondas de swell, geradas no Atlântico Norte, que chegam à costa cearense a uma altura próxima a 1,60 metro. Número que, somado a uma maré equinocial de lua nova de 3,0 metros em Fortaleza, totaliza 4,6 metros.

Segundo o diretor do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luiz Parente Maia, as ondas de swell duram em torno de 20 segundos, com 600 metros de comprimento e dois de altura. "Carregam uma massa enorme de água, numa velocidade muito grande", diz.

No caso da Praia de Iracema e Beira-Mar, para evitar os estragos materiais, Luiz Parente explica que seria necessária uma estrutura de quebra-mar mais forte. Porém, como as ondas não ocorrem sempre com tanta intensidade, acredita que o investimento não é tão necessário. "Uma ressaca como essa acontece, em média, a cada cinco anos. Não temos como evitar, mas podemos prever e avisar as pessoas", declara.

Maré gera estrago também no Icaraí
Na Praia do Icaraí, que sofre intenso processo de degradação com o avanço da maré, foi grande o estrago causado pela ressaca e o swell. Na Avenida Litorânea, a contenção, construída há dois anos, ficou destruída, assim como uma escadaria e boa parte da via. O que o mar não destruiu ficou coberto por areia e pedras.

Na Avenida Litorânea, o mar destruiu a contenção e boa parte da via. Barracas de praia ficaram inundadas. Moradores se queixam de descaso Foto: Kid Júnior

O comerciante José Cláudio Lima, 30 anos, relata que a água foi bater nas barracas de praia, deixando tudo inundado. "É uma vergonha, terminaram a contenção há pouco tempo. Foi dinheiro jogado no lixo", critica.

A recepcionista Lana Élica Andrade, 25 anos, não se conformava em ver os destroços causados pelas ondas. "É muito triste a gente ver o lugar onde temos tanta expectativa de criar os nossos filhos ser destruído dessa forma. O poder público nem apareceu aqui. É um descaso muito grande", desabafa. A moradora denuncia que não é de agora que esse processo de degradação atinge a praia. "Faz tempo que o Icaraí pede socorro", afirma.

Apesar dos destroços, o avanço da maré atraiu muitos curiosos, que registravam tudo. O pastor Nelson Clementino, 38 anos, foi só para conferir o fenômeno. Hoje, disse que irá de novo. "Gosto de ver. É muito ensinamento para a gente. Mesmo com todo investimento e engenharia, ninguém previu isso, o mar chegou e mostrou que pode", observa.

Recuperação
Em nota, a Prefeitura de Caucaia explica que a ressaca, com o agravamento do swell, ocasionou o fenômeno de "erosão do retorno". Afirma ainda que a área afetada atingiu 100 metros da plataforma, resultando em seu tombamento parcial. Entretanto, assegura que está acelerando o processo de recuperação do trecho afetado, com recursos próprios. A previsão da Prefeitura é que os serviços sejam executados no prazo máximo de 30 dias.

Fonte: Diário do Nordeste

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